“As medidas do Estado são tardias e insuficientes”

A comentadora do programa da RTP3 “O último apaga a Luz”, Raquel Varela, deixou a sua opinião sobre as últimas medidas do Estado para o combate ao COVID-19, no entanto, também não poupou criticas às ações “tardias e insuficientes”.

Uma opinião bem fundamentada que vai de encontra ao que pensam muitos portugueses!

“Sou a favor de uma quarentena total, mas isso implica medidas de Estado de excepção. Devemos portanto nesta hora, em que aceitamos limitações à nossa liberdade de circulação e reunião para combater a epidemia, ser mais críticos do Estado, e não menos.

As medidas tomadas pelo nosso Governo são tardias e são insuficientes:

– A situação na China era conhecida desde Janeiro. Que a ignorou desde Novembro ou Dezembro, tendo por isso pedido desculpas publicamente aos seus cidadãos. Chega à Europa em Março, com os governos a reagirem em cima dos acontecimentos, totalmente despreparados – o absurdo chega ao ponto de a Ministra anunciar ontem – em plena crise epidémica – que ia comprar máscaras de protecção para os profissionais de saúde, e que não sabe ainda bem quantos ventiladores há no país. Tudo isto quando a OMS avisou desde Janeiro que a situação era grave, medidas como a Chinesa deviam ser adoptadas por todos os países e não era uma gripe. A OMS disse-o todos os dias. A DGS, o Governo, o Ministério, a UE ignoraram. Falharam, apesar de reiteradamente avisados.

– Não é o virus que causa a crise económica. A crise económica estava lá, despejámos triliões de euros em bancos falidos, as taxas de juros reais estão negativas há dois anos, esse dinheiro nunca retornou à economia real, e desnatou os serviços de saúde. Agora são as pessoas que estão em causa, agora são as pessoas! Já ninguém suporta mais a conversa do risco sistémico bancário. Os banqueiros são os primeiros que deviam ter-se chegado à frente a perguntar quantos milhões precisam para combater a pandemia?

– As medidas do Governo são insuficientes. Porque fecharam-se as escolas mas as trabalhadores dos supermercados estão sem luvas e máscaras; a Auto Europa já tem 7 pessoas em isolamento profiláctico, devia estar fechada – está a contatar precários para em os doentes!. Nos aeroportos, portos, Metro, Carris não havia até agora nenhuma protecção real para quem trabalhava, sem máscaras, luvas – o plano de contingência era “avise se tem febre”…; são milhões de trabalhadores a circular. Apontar o dedo à praia – que nem sabemos se faz mal ou bem, de facto – é não querer ver o problema. Querem a todo o custo manter produção que não é prioritária a funcionar, com risco para quem trabalha. Temos que parar toda a produção que não é essencial, porque estão nas OGMA a construir aviões? Na Auto Europa, na Visteon? Temos que manter a trabalhar só os sectores essenciais de abastecimento, e esses protegê-los ao máximo de contágios. Isto é uma guerra – em guerra deslocam-se sectores produtivos do que é menos importante para o que é essencial – essencial é logística, energia, saneamento, abastecimento. Temos que tentar produzir material médico em falta, ventiladores, ou exigir à União Europeia – que nada fez até agora a não ser pedir fronteiras abertas!! – que produza.

– Mandar as pessoas para casa com 66% do salário é uma medida de um Governo que não tem a mínima noção da realidade laboral do país. Isso para os precários, mais de 30% da força de trabalho do país, significa 450 euros ou menos, não paga sequer a renda. Para quem ganha o salário mínimo, 25% de toda a força de trabalho, significa o mesmo. E os outros fixos só ganham 1000 ou 1500 euros porque a maioria trabalha por turnos e faz horas extra – mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas por semana – se param não pagam as contas. Ou seja, esta medida tem que ser acompanhada pela suspensão do pagamento de hipoteca e rendas, no mínimo; congelamento e redução do preço de bens essenciais. Sob pena de as pessoas não terem como comer.

– Os hospitais privados vão reunir-se com a Ministra dia 17…Nunca subestime a vergonha e a cobardia. Nos outros países, como Espanha, já avisaram que vai haver requisição civil. Se for necessária, e é, deve nacionalizar-se os hospitais privados e laboratórios ao serviço do combate à epidemia. Vejam o exemplo dos investigadores do mundo inteiro que estão a tentar produzir vacinas e medicamentos sem direitos de autor, partilhando o que descobrem! Gente decente.

– Gostava de ter visto 1 accionista de um hospital privado, 1 que fosse, que foram tão rápidos há um mês, a defender que não fazem eutanásia porque ” defendem o direito inviolável à vida” oferecer-se agora para tratar, sem custos, e sem seguros, os doentes não urgentes que não podem agora ser tratados no SNS. Isso sim, era defender o direito à vida. Penso que em vez disso devem ter mandado uma cartinha dos seguros de saúde a dizer “adeus, xauzinho, o seguro não cobre pandemias” e – espero estar errada -, vão aproveitar para negociar com a Ministra, no tal dia 17, e ela vai ceder, receber com lucros para as instituições privadas os doentes não urgentes do SNS…Cá estaremos para ver se em tempo de guerra não vai haver quem faça disto um negócio, e se o Estado não vai ser cúmplice.

Aos médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares, o meu aplauso, o meu “Bravo” de pé. Posso dizer que estou entre as poucas figuras públicas no país, tenho mesmo que me esforçar para encontrar um meia dúzia, que nos últimos anos aplaudi todas as vossas greves por direitos laborais, aplaudi os fundos de greve, os métodos combativos de greve, defendi o vosso estatuto de profissão de risco, de desgaste rápido, e que os salários subam pelo menos 30%. Hoje há milhões de portugueses que o perceberam e aplaudem. Não tenham dúvidas que isso mudou. Hoje somos todos “queremos um SNS com bons salários!”. As greves não são radicais, o Governo é que não cede a não ser quando há greves radicais. E não cede – faz requisições civis. Ora o Governo daqui para a frente, depois de caírem previsivelmente como castelos de cartas, em todo o mundo, não poderão voltar a dizer que os profissionais de saúde são uns “privilegiados”, enquanto salvam “pobres banqueiros aflitos”.”

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