Os desabafos dos enfermeiros portugueses: “Há gente que não merece o nosso suor”

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Muitos dos que estão na luta contra a Covid-19 contam no Facebook histórias dramáticas de separação, medo e injustiça.

“Ao ver as imagens da Póvoa [de Varzim] e de Vila do Conde, percebi que há gente que não merece o nosso suor”. É um desabafo, apenas um entre muitos que são partilhados entre enfermeiros num de vários grupos privados destes profissionais nas redes sociais.

Enquanto nas televisões se debatem medidas económicas mais ou menos musculadas, modelos matemáticos mais ou menos pessimistas e ruas mais ou menos cheias, é nas redes sociais que muitos deles encontram uma forma de fazer apelos, queixas, reclamações. Libertar a tensão que nos assola a todos nos tempos de incerteza de uma epidemia nunca vista — mas que afeta, em primeiro lugar, quem está exposto ao vírus quase todos os dias.

É num dos grupos privados que encontramos todos estes relatos de quem assiste e vive a pandemia do novo coronavírus de perto. São quase 50 mil os profissionais que se apoiam mutuamente nos momentos mais dramáticos das últimas semanas e dos que os esperam nas próximas. Entre reivindicações por melhores condições, possíveis soluções improvisadas para se protegerem nos árduos turnos ou pedidos de ajuda, todos sem exceção concordam numa coisa: está muito por fazer na luta contra a Covid-19.

Separados da família

Ao lado de médicos e assistentes operacionais, é uma das classes que vai ter uma luta titânica na linha da frente — por vezes a única linha — contra a pandemia. E o medo faz-se sentir. Medo de falhar, de contrair a doença, de a propagar a outros doentes ou, pior, à própria família.

O problema estava já na cabeça de todos os enfermeiros há cerca de duas semanas, quando o número de infetados começava a querer disparar. “Estou a pensar isolar-me das minhas duas filhas. Este pensamento parte-me o coração, mas parece-me o mais prudente. Como estão a fazer com os vossos filhos?”, questionava uma enfermeira.

Os relatos dramáticos sucederam-se às centenas, quase todos eles unânimes: trabalhar no hospital e regressar a casa para a família é demasiado arriscado. “Amanhã vou com a mala para o serviço. Ficarei no vestiário o tempo que for preciso”, respondeu um dos muitos enfermeiros preocupados.

“Tenho três filhos. Estou de rastos e de coração partido, mas vou sair de casa. Na terça-feira faço manhã e já não regresso a casa. Nunca me iria perdoar se os infetasse”

O isolamento da família nesta fase da luta contra a pandemia é uma realidade para muitos profissionais. Por vezes, são os próprios a disponibilizarem casas para que os colegas tenham onde dormir quando não estão a trabalhar. Os relatos sucedem-se, embora nem sempre haja uma solução fácil.

“Eu e o meu marido somos ambos enfermeiros do serviço de infecciologia. Ele está com os Covid-19, eu no ambulatório. Para tentar proteger-nos, foi ‘viver’ para o hospital. Saiu ontem de casa com uma mochila com roupa interior e vai assegurar o máximo de turnos que conseguir fazer. Eu fico em casa fechada com os nossos filhos”, pode ler-se noutro relato.

De mães a amamentar que não podem deixar os filhos, a relatos de crianças que são levadas para casas de tias, irmãs ou por vezes avós. “Tenho três filhos. Estou de rastos e de coração partido, mas vou sair de casa. Na terça-feira faço manhã e já não regresso a casa. Nunca me iria perdoar se os infetasse.”

Desabafos de raiva

À imagem do país, muitas das críticas dos últimos dias têm sido apontadas na direção daqueles que recusam cumprir as normas de distanciamento e isolamento social. O desrespeito que, todos sabem, pode traduzir-se facilmente em mais infetados e, por conseguinte, num SNS demasiado curto para tantos doentes, enerva os milhares de enfermeiros que compõem o grupo.

“Soube hoje que temos uma colega de luta ligada a um ventilador. Esteve ela a defender gente que acha normal passear por tempo indeterminado, que não respeita perímetros de segurança e que pura e simplesmente não querem saber?”, justificava uma enfermeira com duas décadas de experiência em cuidados intensivos.

Seguiu-se um apelo: “Estar ligado a um ventilador é, muitas vezes, o início do fim. São intubações múltiplas, técnicas invasivas, cateteres, tudo o que tu não imaginas a não ser nos filmes que vês no sofá”.

Conscientes de que os piores dias estão para chegar — a ministra da Saúde, Marta Temido, anunciou que está previsto que o pico ocorra a 14 de abril —, os enfermeiros questionam o motivo de arriscarem a vida nos hospitais, quando cá fora, o isolamento é apenas um fait divers para muitos portugueses.

“Fui despejar o lixo e em 50 metros cruzei-me com quatro famílias, duas pessoas a passear o cão e várias a correr. O parque em frente a minha casa está cheio de gente, crianças a brincar, pessoas a fazerem exercício. É por estes que me pedem que vá para o hospital? É por eles que tenho que me expor à infeção e pôr toda a minha família em risco? É por eles que me cancelam as férias por tempo indeterminado? É por eles que abdico dos meus direitos?”, relata outra enfermeira, que só pede para “que fiquem em casa”.

A luta continua

Um dos temas que mais tem irritado os enfermeiros é recente e foi suscitado pela Ordem dos Enfermeiros, que acusa os hospitais de estarem a obrigar os profissionais em isolamento profilático a descontarem esses dias de quarentena no banco de horas extraordinárias ou em dias de férias.

“Aplausos, obrigados, heróis… depois, na prática e no terreno, é isto que temos”, critica um enfermeiro. As críticas sucedem-se, desta vez às chamadas ao trabalho de enfermeiras que foram forçadas a ficar em casa devido ao encerramento das escolas decretado pelo governo: “Estão cheios de vontade de aplicar a medida de enfiar filhos dos profissionais de saúde numa escola qualquer, como se não houvesse risco de contágio”, nota outra colega.

Visão mais rara é a de críticas ao comportamento da Bastonária, mas elas surgem. Pelo menos num caso, foi colocada em causa a sua ação ou falta dela. “Onde é que anda a bastonária?”, questionam a dada altura. A resposta foi avassaladora: centenas de enfermeiros saíram em defesa da líder da ordem profissional, palavras de apoio, vídeos das intervenções na televisão, e até a própria Ana Rita Cavaco decidiu deixar o seu comentário num tom bem-humorado: “Estou em casa, querem a morada? Se vierem tragam-me pão ralado sff. Obrigada”.

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